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Recuperação judicial no agro cresceu 66% em um ano no país

Levantamento aponta avanço desenfreado da crise financeira entre produtores rurais, impulsionado por safras vendidas abaixo do custo e inclusão de microempreendedores na estatística oficial

Claudio Damasceno aponta que, ao somar a cadeia de insumos, agroindústria e comercialização, o número de recuperações judiciais chega a 1.575 CNPJs, representando cerca de 20% do total do país
Claudio Damasceno aponta que, ao somar a cadeia de insumos, agroindústria e comercialização, o número de recuperações judiciais chega a 1.575 CNPJs, representando cerca de 20% do total do país -

Publicado por Eduarda Gomes

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O quadro de endividamento dos produtores rurais e das empresas do agronegócio brasileiro segue em rota de deterioração contínua, com projeções que indicam um agravamento ainda maior para o ano de 2027. A constatação é do mais recente relatório "Monitor RGF-Bizdoc", um levantamento especializado elaborado pelas consultorias de reestruturação organizacional RGF e Bizdoc, focado no acompanhamento da evolução dos processos de recuperação judicial no país.

Segundo as conclusões do documento, o setor agropecuário se consolida atualmente como o epicentro do ciclo de insolvência no Brasil. Ao término do primeiro semestre deste ano, foram contabilizados 1.263 CNPJs de agricultores em processo de recuperação judicial.

O montante representa um salto de 21,4% em relação ao encerramento de 2025 e uma alta de 66% na comparação com o estoque registrado no final do primeiro semestre do ano anterior. O número atual também supera expressivamente os 539 casos computados no primeiro trimestre, variação explicada pela inclusão dos microempreendedores rurais no mapeamento estatístico. As informações são do Globo Rural.

Ao analisar o impacto sistêmico do endividamento no campo, Claudio Damasceno, sócio sênior da RGF e da Bizdoc e coordenador do Monitor, ressalta a dimensão abrangente do problema. “Somando a cadeia de insumos, agroindústria e comercialização, o total chega a 1.575 CNPJs, cerca de 20% de todo o estoque de recuperações judiciais do país”, destaca. A proporção de processos no agronegócio alcançou a marca de 1,8 para cada mil registros, número que equivale a seis vezes a média nacional.

Analisando o cenário estritamente produtivo, a chamada situação "porteira para dentro", a cadeia da soja figura como a mais afetada do setor. Ao final do primeiro semestre, contavam-se 589 produtores de soja em recuperação judicial, valor que representa quase metade do total do segmento, além de um crescimento de 26,7% frente ao fim de 2025 e praticamente o dobro em relação ao mesmo período do ano passado.

Apenas nos primeiros seis meses do ano, 124 sojicultores recorreram à proteção judicial. Segundo Damasceno, o movimento decorre de duas safras consecutivas comercializadas abaixo do custo de produção, do acúmulo de dívidas e da falta de margem de lucro no ciclo 2025/26 para a amortização dos débitos.

Contudo, o avanço da insolvência estendeu-se por quase todas as atividades produtivas. A pecuária de corte, segundo maior segmento no ranking de recuperações do setor, contabilizou 19 novas solicitações no semestre.

As taxas de crescimento mais acentuadas no acumulado dos primeiros seis meses de 2026 foram observadas nas culturas do arroz (alta de 53,8% em relação a dezembro de 2025), milho (+45,2%) e café (+44,4%). Já na bovinocultura de leite, o salto foi vertiginoso: um aumento de 257% nos pedidos entre os produtores leiteiros, totalizando 50 processos. “As causas [das dificuldades] são diferentes para cada cultura, mas há uma regra padrão: o que estamos colhendo resulta de algo que aconteceu seis meses, um ano ou até dois anos antes”, pondera o coordenador do estudo.

As dificuldades financeiras do campo já contagiam com força os elos localizados "porteira para fora", segmentos econômicos operantes na distribuição, transformação e suprimento. Com exceção das indústrias de suínos e aves e de moagem de trigo, registraram-se altas nos pedidos em praticamente todas as vertentes, incluindo atacado de insumos, fábricas de rações, concessionárias de máquinas agrícolas, usinas, laticínios, frigoríficos bovinos e comercializadoras de grãos e café. No topo dos casos críticos estão as revendas de fertilizantes e defensivos agrícolas, somando 48 processos ativos, seguidas pelas indústrias de rações (24) e revendedoras de máquinas (17).

No mapeamento regional, o Sul e o Centro-Oeste lideram o número de recuperações judiciais no agronegócio, somando 392 e 391 casos, respectivamente, impulsionados pela dinâmica do Rio Grande do Sul e de Mato Grosso. Em termos estaduais, Mato Grosso assume a liderança nacional com 196 CNPJs em recuperação, seguido de perto pelo Rio Grande do Sul, com 194.

Outro indicador destacado pelo relatório refere-se ao avanço das recuperações judiciais entre pequenos e microprodutores rurais, atuantes tanto via CNPJ quanto como pessoa física. Do total de 874 produtores rurais com recuperação judicial ativa, 54% são classificados como microempresários, 26% como pequenos produtores e 20% como médios. Desde o primeiro trimestre de 2023, o volume de recuperações entre as microempresas do setor multiplicou-se por dez, enquanto entre as pequenas o aumento foi de quase nove vezes.

Na visão de Claudio Damasceno, constata-se um processo de popularização do recurso legal. “O pequeno e médio produtor que antes tentava pagar a dívida passou a ser estimulado a buscar recuperação judicial, porque ela protege o patrimônio”, pontua.

Em relação às perspectivas de curto e médio prazo, o especialista alerta que o pico do ciclo de insolvência ainda não foi atingido. “O pior dos pedidos de recuperação judicial ainda está por vir”, afirma, projetando novo agravamento ao longo do segundo semestre de 2026 e durante todo o ano de 2027, reflexo direto do estrangulamento das margens de lucro verificado nas safras 2024/25 e 2025/26.

A este cenário somam-se complicadores internacionais, como as perturbações logísticas no Estreito de Ormuz motivadas por conflitos no Oriente Médio, região estratégica no fornecimento global de fertilizantes, o que tende a encarecer os custos de produção dos próximos ciclos. Eventuais fatores de alívio, como o recuo gradual da taxa Selic e a isenção de tarifas norte-americanas para produtos como carne bovina, café e açúcar, deverão surtir efeito prático somente entre os anos de 2027 e 2028.

Por fim, prevê-se uma contínua transferência do risco financeiro dos produtores para as revendas de insumos, tradings comercializadoras e para o mercado de capitais, haja vista que a restrição ao crédito bancário tradicional força os agricultores a buscar financiamento alternativo com estes agentes. “Há várias nuances possíveis, nenhuma na direção da paz”, conclui Damasceno.

LEIA ABAIXO UM RESUMO DA NOTÍCIA

- Aumento e novos perfis: O total de processos de recuperação judicial no agro subiu 66% em um ano, somando 1.263 CNPJs (incluindo microprodutores), impulsionado principalmente pela cadeia da soja (589 casos) e com forte alta entre micro e pequenos produtores.

- Efeito dominó e liderança regional: A crise ultrapassou as fazendas e atingiu revendas de insumos (48 casos), fábricas de rações e concessionárias. Regionalmente, Mato Grosso (196 CNPJs) e Rio Grande do Sul (194 CNPJs) concentram a maioria do estoque do país.

- Projeções de agravamento: O ápice do ciclo de pedidos é esperado para o segundo semestre de 2026 e 2027, pressionado por safras vendidas abaixo do custo, alta nos fertilizantes e restrição do crédito bancário tradicional.

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