Custos altos derrubaram lucro das empresas do agro no 2° trimestre
Frete marítimo mais caro, conflito no Oriente Médio, combustíveis em alta e dívidas pesadas comprimiram os resultados de 11 das 21 principais companhias do setor em relação a 2025

As expectativas do mercado eram negativas e se confirmaram. No segundo trimestre de 2026, boa parte das empresas do agronegócio registrou queda nos lucros, reflexo de um cenário de custos elevados que nem sempre vieram acompanhados por preços remuneradores. A guerra no Oriente Médio fez disparar os gastos dos exportadores com fretes e, ao aumentar a pressão inflacionária, freou o ritmo de corte dos juros no Brasil, elevando as despesas das companhias com dívidas.
Entre os frigoríficos, o alto custo do gado bovino nos Estados Unidos e a formação de estoques para lidar com novas dinâmicas comerciais também pesaram sobre os balanços. Apesar do cenário adverso, a expectativa é de que o terceiro trimestre seja mais positivo, impulsionado pela elevação dos preços de diversos produtos.
Dados compilados pelo Valor Data mostram que, de um grupo de 21 companhias do setor agropecuário, 11 registraram queda no lucro em comparação com o segundo trimestre de 2025. Oito empresas apresentaram prejuízo no período e 13 marcaram recuo no Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização).
"Um denominador comum foi o nível de alavancagem mais alto que, quando combinado com o alto patamar de juros, faz com que a geração de caixa fique comprimida", observa Gustavo Troyano, analista do Itaú BBA. A taxa Selic em níveis elevados também afeta diretamente o endividamento dos produtores rurais e reduz a compra de insumos, o que gera impacto negativo para empresas como a 3tentos, destaca Gabriel Barra, analista do Citi.
SETOR DE CARNES
Entre os frigoríficos, o preenchimento da cota de exportação de carne bovina para a China pesou sobre os resultados do segundo trimestre e deve continuar afetando os números do terceiro trimestre. De abril a junho, a perspectiva de que a cota seria preenchida em julho fez com que algumas empresas utilizassem mais capital de giro para formar estoques de vendas a serem pagas no terceiro trimestre. Foi o caso da Minerva, que projeta monetizar esses estoques no segundo semestre. "Em geral essa indústria não trabalha com estoques, mas achei positivo, de forma tática", avalia a analista do Citi, Renata Cabral.
A ausência da China nas compras durante o terceiro trimestre deve ser sentida pelas empresas, ainda que os grandes frigoríficos consigam diversificar melhor suas vendas em relação aos de menor porte. No entanto, mesmo companhias com baixa exposição ao mercado chinês, como a MBRF, poderão ser impactadas pela maior oferta e pelos preços mais baixos no mercado interno nacional, decorrentes do redirecionamento da carne que iria para os chineses, segundo a analista do Citi.
Em relação às operações de carne de frango, a maior oferta do produto nos Estados Unidos prejudicou os resultados da Pilgrim’s Pride, subsidiária da JBS. A margem Ebitda da empresa encolheu 6,9 pontos percentuais, caindo para 5,2%. Por outro lado, a MBRF, que não possui operações de frango no mercado norte-americano, lidou com uma oferta mais equilibrada no Brasil.
De forma similar à Minerva, a MBRF formou estoques para suprir o Oriente Médio. A medida dificultou a redução da alavancagem no trimestre, mas deve se reverter em aumento de receita no terceiro trimestre, explicou o vice-presidente de finanças da empresa, José Ignacio Scoseria, em teleconferência com analistas. Nos demais mercados internacionais, a demanda por proteína animal permanece firme, impulsionada pelo aumento da renda e pelo crescimento no consumo global de proteínas.
Para o terceiro e o quarto trimestres, a ausência das compras chinesas, devido ao preenchimento da cota de carne bovina, e a possível suspensão das importações europeias de carne de frango e bovina, motivada por regras de controle de antimicrobianos, devem afetar em maior ou menor grau o setor de carnes.
DESAFIOS PARA EXPORTADORES
Na avaliação do estrategista-chefe da Sincra, Gustavo Cruz, o ano de 2026 está sendo desafiador para o setor. "O agronegócio sofreu também por conta da guerra no Irã, que encareceu o diesel e o preço de fertilizantes", afirma. Além de obrigar os exportadores brasileiros a enviarem cargas por rotas alternativas mais longas e dispendiosas, como o Canal de Suez, o conflito encareceu o escoamento interno da safra nacional devido ao encarecimento do petróleo e do combustível.
Houve, porém, uma contrapartida positiva, segundo aponta o analista da Genial Investimentos, Luca Vello. A alta do petróleo reflete-se diretamente nos preços das fibras sintéticas que, por sua vez, impulsionam as cotações do algodão. O movimento favoreceu e deve continuar beneficiando os resultados da SLC Agrícola, pontua o analista. No segundo trimestre de 2026, a empresa obteve um lucro líquido de R$ 245,1 milhões, o que representa um crescimento de 75,3% na comparação anual.
AÇÚCAR E ETANOL
No segmento sucroalcooleiro, o desempenho do segundo trimestre foi negativo devido à queda nos preços do açúcar e do etanol, somada à decisão de algumas usinas de reter maior volume de biocombustível em estoque para comercialização futura. A possibilidade de impactos decorrentes do fenômeno El Niño no encerramento da colheita justifica a estratégia, explica Leonardo Alencar, analista da XP. No período, o Ebitda da Jalles registrou queda de 41,7%, enquanto o da São Martinho recuou 27,7%.
Para o terceiro trimestre, o cenário projeta melhora com a retomada da demanda elevando os preços do etanol, a monetização dos estoques e a alta do açúcar sustentada pela oferta restrita em outros países produtores, segundo Alencar. Contudo, é necessário monitorar a incidência de chuvas nos canaviais, fator que influenciará a decisão das usinas em direcionar a moagem para a produção de açúcar ou de etanol, acrescenta Gabriel Barra, do Citi.
PERSPECTIVAS FUTURAS
Gustavo Troyano, do Itaú BBA, prevê uma recuperação gradual no cenário para as empresas do agronegócio ao longo do terceiro trimestre. O analista pontua que o El Niño ainda é um "problema do futuro" para os balanços, mas pode se transformar em oportunidade a depender da localização de cada empresa. O fenômeno, projetado para ser o mais forte da história, deve atingir seu pico entre o final de 2026 e o início de 2027. "Na nossa visão, 2026 como um todo ainda é um ano desafiador", avalia Troyano.
Já Leonardo Alencar, da XP, enxerga um ambiente mais favorável no terceiro trimestre para as cadeias de soja, milho, algodão, etanol e carnes. "A demanda está surpreendendo positivamente", afirma. A oferta global mais enxuta de algumas commodities tem atuado como suporte para a sustentação das cotações internacionais.
As informações são do Globo Rural.
LEIA ABAIXO UM RESUMO DA NOTÍCIA
- Queda nos lucros e custos em alta: Das 21 empresas do agro analisadas, 11 tiveram queda nos lucros no 2º trimestre de 2026, pressionadas por fretes caros, combustíveis, fertilizantes e dívidas sob juros elevados.
- Impactos específicos nos setores: Frigoríficos enfrentaram o custo do gado nos EUA e retenção de estoques para a China, enquanto usinas de açúcar e etanol sofreram com a queda temporária nos preços de comercialização.
- Perspectiva de recuperação: O mercado projeta um 3º trimestre mais positivo, impulsionado pela reação nos preços de soja, milho, algodão, biocombustíveis e pela demanda aquecida por proteínas.



